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ARTIGO “Acordando para a realidade”

10 de outubro de 2019

É impressionante como nos acostumamos com absurdos. Nosso estado vive há anos em situação falimentar, sem condições de fazer investimentos e de prover serviços públicos essenciais, como segurança e educação, em nível de qualidade satisfatório. Como se não bastasse isso, temos uma carga de ICMS sobre o PIB mais elevada do que a média nacional, do que a de São Paulo e do que a dos outros estados da Região Sul.

Isso não é um problema “dos políticos”. É sobre a vida, sobre a rotina da grande maioria silenciosa dos gaúchos que estamos falando. Um cidadão gaúcho de baixa ou média renda se acostumou a ter medo de andar na rua com sua carteira, a ver seu filho voltar de uma escola pública sem aprender nada, a sacolejar em ônibus que andam por ruas e estradas esburacadas e, ainda, a pagar mais impostos nos produtos que consome.

Enquanto isso, uma minoria de servidores públicos estaduais se acostumou a viver com privilégios. Licenças e aumentos salariais automáticos (triênios, quinquênios e multiplicadores) e aposentadorias e pensões integrais, conquistadas após períodos de trabalho reduzidos e contribuições previdenciárias incompatíveis, viraram “direitos”, além da tradicional estabilidade. “Direitos” diferenciados de uma minoria que sempre foi suficientemente organizada e forte para manter a maioria silenciosa e anestesiada a essa situação e, o que é pior, pagando por seus privilégios por tantos anos.

Em resumo, nos acostumamos com regras que transferem uma quantidade gigantesca de recursos de uma sociedade de 11 milhões de pessoas para um grupo de cerca de 350 mil privilegiados. O maior símbolo dessa distorção está nos dados da previdência estadual. Não é difícil entender que, se cerca de um terço de todas as receitas líquidas da administração pública são consumidas pelo déficit previdenciário, não tem como o estado funcionar direito.

Desse modo, temos que aplaudir a coragem do governador Eduardo Leite de enfrentar esse problema com um pacote de projetos que está por vir e oferecer muito apoio aos nossos deputados estaduais, que certamente enfrentarão a resistência da minoria privilegiada. É uma grande oportunidade para se impor, finalmente, o benefício da maioria e, com isso, começar a tirar o estado da crise.

*Artigo publicado originalmente na ZH on-line